2 jan 2019 às 09:50 hs
Bolsonaro ao ataque: as quatro frases chave da tomada de posse

Novo presidente do Brasil surpreende com discurso “de campanha eleitoral” em pleno parlatório do Palácio do Planalto, logo após ser oficializado. O público respondeu no mesmo tom com gritos “mito, mito” e “o capitão chegou”

Momentos antes de Jair Bolsonaro discursar ao povo brasileiro, pela primeira vez, no parlatório do Palácio do Planalto, os seus colaboradores adiantavam aos jornalistas que o texto teria um tom de “conciliação nacional”. Mas afinal o presidente do Brasil começou a sua administração ao ataque, para delírio dos cerca de 115 mil apoiantes na Praça dos Três Poderes, usando palavras de ordem recuperadas da campanha eleitoral, baseadas em críticas à esquerda, na exaltação da família tradicional, na promessa de combate sem tréguas aos criminosos, na defesa da propriedade privada e com muitas referências a Deus pelo meio.

Segundo Bolsonaro, o seu governo foi eleito “para restabelecer a ordem no país”, a bandeira do Brasil “jamais será vermelha”, os movimentos sociais terão de se habituar a respeitar “a propriedade privada” e o dia da sua tomada de posse é “o dia em que o país se livrou do socialismo”.

Frase 1: “Este é o dia em que o povo se começou a libertar do socialismo, da inversão de valores, do politicamente correto, do gigantismo estatal”

“Este momento não tem preço e só é possível porque Deus preservou a minha vida e vocês acreditaram em mim”, começou por assinalar o novo presidente, aludindo ao ataque que sofreu dia 6 de setembro em Juiz de Fora, quando num comício o desempregado Adélio Bispo, o esfaqueou. “E este é o dia”, prosseguiu o novo presidente, “em que o povo se começou a libertar do socialismo, da inversão de valores, do politicamente correto, do gigantismo estatal”. “A voz das urnas foi muito clara e eu comprometo-me com o desejo de mudança”, completou.

Para a maioria dos observadores, o conteúdo do discurso não é novo, o que surpreendeu foi o momento e o local em que foi utilizado e os sinais de contemporização dado pelo presidente nos últimos meses. A referência ao fim do socialismo é um ataque claro ao PT, que governou o país de 2003 a 2016 e cujo candidato Fernando Haddad chegou à segunda volta com Bolsonaro. E o “gigantismo estatal” também, uma vez que o partido de centro-esquerda foi acusado por Bolsonaro e outros candidatos presidenciais de aparelhar o estado. A “inversão de valores” e o “politicamente correto” aludem aos avanços na área dos costumes no Brasil e que vêm preocupando setores mais conservadores e religiosos, a base do eleitorado de Bolsonaro.

Frase 2: “Temos o desafio de enfrentar a ideologia que descriminaliza bandidos, pune polícias e destrói famiíias, vamos restabelecer a ordem no país”

Bolsonaro voltou, entretanto, a sublinhar a sua cruzada contra o crime e o desejo de punições mais fortes aos criminosos, mesmo que essas medidas conflituem com os defensores dos direitos humanos. “Temos o desafio de enfrentar a ideologia que descriminaliza bandidos, pune polícias e destrói famiíias, vamos restabelecer a ordem no país”, afirmou.

Para concluir com o seu lema de campanha, e que é também o lema dos paraquedistas brasileiros, ramo a que o capitão na reserva pertenceu: “Peço ao bom Deus que nos dê sabedoria e que abençoe esta grande nação: Brasil acima de tudo e Deus acima de todos”.

Frase 3: “Esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha, só será vermelha se for do nosso sangue derramado para a manter verde e amarela”

Já depois de finalizar o discurso, ergueu a bandeira, lado a lado com o vice-presidente Hamilton Mourão, e gritou “esta é a nossa bandeira, que jamais será vermelha, só será vermelha se for do nosso sangue derramado para a manter verde e amarela”.

Mais uma referência ao PT e ao alegado alinhamento ideológico do Brasil a países como Cuba ou Venezuela, recuperada dos comícios e dos discursos de campanha.

“O discurso foi uma coleção de tweets temperada com messianismo”, resumiu Igor Gielow, colunista do jornal Folha de S. Paulo . Guilherme Boulos, candidato à presidência pelo PSOL, de extrema-esquerda, disse que Bolsonaro “reafirma o seu compromisso em perseguir a esquerda e aqueles que lutam por direitos humanos e sociais”.

Frase 4: “Traremos a marca da confiança de que o governo não vai gastar mais do que arrecada, do interesse nacional, do livre mercado e da eficiência, da garantia de que as regras, os contratos e as propriedades serão respeitados”

O foco do discurso no Planalto não foi na crise económica – apesar do presidente ter dito que “o brasileiro pode e deve sonhar com uma vida melhor, com meritocracia e com um governo eficiente” – tema que deixou para o primeiro discurso, ainda no Congresso Nacional, perante senadores e deputados, e que mereceu elogio de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos. “Traremos a marca da confiança de que o governo não vai gastar mais do que arrecada, do interesse nacional, do livre mercado e da eficiência, da garantia de que as regras, os contratos e as propriedades serão respeitados”, afirmou no discurso mais rápido de sempre de um presidente no Congresso – 10 minutos.

“A questão da propriedade é uma menção clara ao PT e ao Movimento dos Sem Terra, que ocupa terras supostamente ociosas, mais um tema recuperado da campanha”, disse Cristiane Lôbo, comentadora da Globo News.

No Planalto, entretanto, o instante que mediou a passagem da faixa presidencial do cessante Michel Temer para Bolsonaro, foi ocupado por um discurso de Michelle Bolsonaro, uma situação fora do protocolo e inédita na história do Brasil. Em libras, a língua brasileira de sinais e com a ajuda de uma emocionada intérprete vocal, Michelle, que é evangélica, também se referiu a Deus nalgumas ocasiões. Pelo meio, ainda deu dois beijos na boca do marido, para responder aos apelos do público.

Antes dos discursos, Bolsonaro saiu ao início da tarde no Brasil da Granja do Torto, propriedade rural dos presidentes nos arredores de Brasília, rumo ao Congresso, onde foi recebido pelos presidentes do Senado, Eunício Oliveira, e da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia. Perante os parlamentares, na casa em que trabalhou por 28 anos, fez juramento constitucional, assinou os termos da posse e discursou. Já após o desfile de Rolls Royce descapotável, em que usou colete à prova de balas e chegou a chorar a meio do percurso, o novo presidente brasileiro recebeu felicitações dos representantes de países estrangeiros, entre eles, Marcelo Rebelo de Sousa, presidente da República de Portugal, e de Benjamin Netanyahu, primeiro-ministro de Israel. A seguir apresentou os seus 22 ministros, incluindo Sergio Moro, da justiça, e Paulo Guedes, da economia, considerados os mais influentes.

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