5 abr 2019 às 10:48 hs
As primeiras descobertas do TESS, o satélite ‘caçador de planetas’

Ilustração mostra um planeta quente do tamanho de Saturno orbitando ao redor de sua estrela hospedeira — Foto: Gabriel P. Diaz/Instituto de Astrofísica das Canárias
Ilustração mostra um planeta quente do tamanho de Saturno orbitando ao redor de sua estrela hospedeira — Foto: Gabriel P. Diaz/Instituto de Astrofísica das Canárias

Lembra do telescópio espacial Kepler, aquele que revolucionou a astronomia de exoplanetas? Lançado em março de 2009, o satélite esteve ativo até meados de novembro de 2018 observando cuidadosamente pequenas áreas do céu. Cuidadosamente porque deveria ficar apontado para a mesma direção por meses a fio, capturando a luz de estrelas distantes. Fazendo isso meticulosamente, qualquer sinal de variação de brilho da estrela, por mais sutil que fosse essa variação, disparava um alerta de interesse.

A missão do Kepler era justamente encontrar exoplanetas, a partir de variações sutis de brilho das estrelas no campo de visada do telescópio, usando a técnica de trânsito estelar. É claro que uma variação no brilho da estrela pode ter outras causas, como uma ou outra estrela passando na frente, ou mesmo uma nuvem de cometas se desintegrando. Sim, ao que parece essa é a melhor explicação para aquela estrela que tinha uma variação de brilho tão estranha que parecia que tinha uma enorme estrutura à sua volta. Eu cheguei a falar dessa estrela algumas vezes aqui no blog.

Além de casos interessantes como esse, o Kepler descobriu quase 6 mil candidatos a exoplanetas, dos quais 2.300 foram confirmados posteriormente através de outras técnicas. Seu catálogo possui mais de 13 milhões de objetos que ainda estão sendo analisados.

Ilustração mostra o satélite Tess, da Nasa, que observa milhares de estrelas brilhantes desde abril de 2018 em busca de planetas fora do sistema solar — Foto: Gabriel P. Diaz/Instituto de Astrofísica das Canárias
Ilustração mostra o satélite Tess, da Nasa, que observa milhares de estrelas brilhantes desde abril de 2018 em busca de planetas fora do sistema solar — Foto: Gabriel P. Diaz/Instituto de Astrofísica das Canárias

Kepler x TESS

Ainda antes de ser desativado definitivamente, o Kepler ganhou um sucessor lançado em abril do ano passado, o satélite TESS. Os objetivos da missão do TESS são quase os mesmos do Kepler, mas seus métodos são um pouco diferentes.

Enquanto o Kepler chegava a passar 6 meses observando a mesma região do céu, o TESS observa o mesmo campo por duas órbitas consecutivas, totalizando 27 dias. Com isso, o TESS só vai conseguir observar estrelas brilhantes e que estejam mais perto da Terra. Mas, por outro lado, vai observar uma área do céu 20 vezes maior que o Kepler, representando uns 5% do céu todo. Segundo as estimativas da missão, isso deve representar uns 20 mil novos planetas, e com uma vantagem a mais. Como o TESS vai observar estrelas mais brilhantes do que o Kepler, os casos suspeitos poderão ser acompanhados posteriormente por telescópios na Terra.

A missão inicial do novo satélite de durar dois anos. Mas depois dos primeiros 12 meses no espaço, os primeiros resultados já começaram a ser publicados.

Na semana passada, a revista “Astrophysical Journal” publicou um artigo reportando o estudo de sismologia de uma estrela do tipo subgigante e de quebra a descoberta de um exoplaneta. Como assim, sismologia de estrelas?

É isso mesmo! Estrelas possuem movimentos internos que geram variações de sua forma, muitas vezes fazendo até mesmo com que elas pulsem, causando também pequenas variações de brilho. Esses movimentos são conhecidos como sismos estelares, ou, popularmente, “stelemotos”. São efeitos tão sutis que apenas observações precisas e persistentes conseguem captá-los, e seu estudo dá importantes pistas a respeito do interior das estrelas, assim como os terremotos conseguem descrever o interior da Terra.

‘Saturno quente’

Pois bem, ao observar uma determinada região do céu, a equipe de astrônomos liderada por Daniel Huber, da Universidade do Havaí, encontrou a estrela HIP116158. Ela está na fase de transição entre anã e gigante e é, portanto uma subgigante. Ao estudar seus stelemotos, Huber encontrou uma surpresa bem agradável, um Saturno quente!

“Saturno quente” é o termo usado para designar um planeta mais ou menos com o tamanho e a massa de Saturno, mas que esteja muito mais próximo da sua estrela hospedeira do que o nosso Saturno está do Sol. Dessa maneira, ele é muito mais quente que o nosso Saturno e por isso não espere que ele tenha anéis.

A equipe que fez a descoberta do primeiro exoplaneta do TESS possui mais de 140 pesquisadores, e dentre eles está José Dias do Nascimento, da Universidade Federal do Rio Grande do Norte! Ele também assina o artigo sobre o planeta proposto para o sistema duplo de estrelas de que falei na semana passada.

Zé Dias, como é mais conhecido, diz que “TOI-197-01 (o nome do objeto no catálogo do TESS) é hoje um dos exoplanetas com o tamanho de Saturno com a melhor caracterização de todos os tempos”. De acordo com as contas da equipe responsável pela descoberta, o objeto teria entre 55 e 65 vezes a massa da Terra, com um raio de quase 10 vezes o raio terrestre, colocando-o numa faixa entre um “Saturno magrinho” e um “Júpiter típico”, se considerarmos sua densidade.

Esse foi apenas o cartão de visitas do TESS, e podemos esperar muito mais pela frente. Sua missão inicial pode ser estendida caso o satélite permaneça operacional por até 10 anos, pelo menos. Esse é o tempo estimado para que sua órbita se desestabilize. Mas, se continuar com essa perspectiva de sucesso, até isso pode ser ajustado depois.

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