9 out 2018 às 10:55 hs
Alunos de associação retomam projetos após vandalismo em entidade

Dez telas que já estavam prontas para exposição foram danificadas, mas trabalho continua com doações

Por PAULA MACIULEVICIUS BRASIL

“Desenho e pintura. É arte”, explica, debruçado na tela. Gilberto tem síndrome de Down e é um dos 40 estudantes da Associação Juliano Varela que pintam e desenham sob a orientação da professora e artista plástica Monique Merlone.

“Este é meu. Olha meu nome aqui. É um trator e um pneu para ajudar a puxar guincho. O quadro bonito, o mais bonito”, completa, vangloriando-se.

Nas aulas, Gilberto, Alisson e Ota trabalham coordenação motora, criatividade, senso estético e crítico. “Eles vão aprendendo a usar materiais; agorinha mesmo eu estava falando para pegar o pincel mais leve. A arte ajuda muito nisso, nas habilidades motoras finas e também a se concentrar”, diz a professora Monique, 60 anos. O trabalho é mais mental, além de ser terapêutico. “Muitos não conseguem falar nem escrever, então, por meio da pintura, estão se expressando”, avalia a mestre.

E são os sentimentos e as ideias que são colocadas ali, em tela. “Devagar, faz assim, aqui, olha, assim. Pega assim”, ensina Alisson Tavares, 19 anos. Também com síndrome de Down, é um dos que pinta com leveza e disciplina, a ponto de se propor a nos ensinar.

Sozinho, o quadro de rosas que tem nas mãos foi ele quem fez e agora o retoca. “Por que eu fiz flor? Porque eu gosto, pela pintura, pintei a rosa primeiro e depois o verde”, mostra Alisson.

Orientado a pintar para a exposição de fim de ano, Alisson fala que além daquele há outros prontinhos para a mostra que será aberta ao público.

Há três anos como professora de artes, Monique explica que o tema das aulas é livre para os alunos desenharem o que preferir.

“Eu falo: vamos desenhar uma flor? Um carro? Uma casa? Aí, eu ajudo fazendo risco por baixo da tela e eles passam tinta por cima”, exemplifica. Os alunos pintam e finalizam do jeitinho deles. “Dar aula para especiais depende muito da sensibilidade do professor, cada um tem um teor diferente”, comenta Monique.
As limitações podem estar na fala, mas não no sentimento. Ansiosos, os alunos sabem que as telas que pintaram ao longo do ano serão objeto de exposição da 2ª Mostra de Artes Plásticas da Juliano Varela, que este ano será no Museu de Arte Contemporânea de Mato Grosso do Sul (Marco), em Campo Grande.

VANDALISMO

O episódio ocorreu no fim de semana, entre os dias 22 e 23 de setembro, quando um grupo pulou o muro para entrar na piscina e o que encontrou do material de artes jogou ao chão e nas telas. Pelo menos 10 trabalhos que já estavam prontos foram estragados. Na segunda-feira (24), a coordenação do polo suspendeu as aulas para limpar tudo e evitar que os alunos vissem todo cenário. No canto da quadra, onde ficava parte do material das aulas de Monique, ainda é possível ver os rastros do vandalismo. “A cena do crime está escondida, colocamos ali um painel para tampar, porque ficou muito feia a parede”, recorda a professora.

A notícia chegou aos alunos e, quando as aulas retornaram, na terça-feira (25), eles já sabiam que parte do material havia sido perdida.

“Viram nos noticiários e também a família comentou, então já chegaram falando: ‘Nossa, poxa, estragaram nosso quadro, nosso material’, ficaram bem tristes”, diz professora.

Alguns dos trabalhos dos alunos foram salvos por estarem guardados em um armário trancado; agora, eles pintam mais telas para a exposição. O vandalismo não foi para o lixo e vai ganhar espaço na mostra.

“Não vou jogar fora, faremos uma instalação com os estragados. Montar um ambiente para passar uma mensagem. A instalação é uma modalidade da arte contemporânea e conceitual também”, finaliza.
A mostra será no dia 22 de novembro, no Marco, na Rua Antônio Maria Coelho, 6.000.

COMO AJUDAR

Parte do material de pintura e desenho veio ao chão na data do vandalismo. Os alunos ficaram sem as ferramentas que dão voz às expressões artísticas. Desde então, a professora de artes Monique Merlone recebe doações de amigos e artistas. Dos 50 trabalhos já feitos, cerca de 10 telas foram estragadas. Elas enfeitavam o cantinho da quadra destinado a armazenar o material. Os trabalhos, mesmo os que foram detonados, vão compor a exposição como instalação contra o vandalismo, em novembro. O polo de Associação Juliano Varela funciona na Avenida Marquês de Pombal, 2.220, no Bairro Tiradentes, em Campo Grande.

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