12 out 2018 às 21:05 hs
«A IDEIA DE QUE UTILIZAMOS SÓ 10 POR CENTO DO CÉREBRO É UM MITO»
  • Entrevista – Fernando Gomes Pinto

    Fernando Gomes Pinto, neurocientista brasileiro, é presença assídua no programa «Encontro com Fátima Bernardes», da TV Globo.

O neurocientista brasileiro Fernando Gomes Pinto, autor do livro O Cérebro Ninja, desvenda as capacidades do cérebro e de que forma podemos estimulá-lo. Explica como é importante começar a valorizar o treino deste órgão e dá dicas para o fazer. «Não bastam palavras cruzadas», diz.

Texto de Alexandra Pedro | Fotografia de Gustavo Bom/Global Imagens

A ideia surgiu o ano passado, quando participava num congresso sobre hidrocefalia, no Japão: «escrever um livro com «neurodicas» fantásticas para turbinar o cérebro». E assim foi. O Cérebro Ninja, apresentado esta semana por Fernando Gomes Pinto, em Portugal, explica como usar em pleno o seu cérebro e como treiná-lo para atingir esse desempenho.

Formado na Universidade de Medicina de São Paulo, onde é hoje docente de Neurocirurgia, e presença assídua no programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo, o neurocientista tem já oito livros publicados.

Este último realça a importância de estimular o cérebro para viver «de forma plena e feliz».

Em entrevista à DN Life, garante que pequenas mudanças diárias são essenciais para estimular o cérebro e recorre aos ninjas japoneses para apresentar a sua teoria.

Mas o que significa utilizar o cérebro a 100 por cento? Foi o que tentámos perceber na entrevista.

Porquê a comparação com os ninjas?
No ano passado, participei num congresso especial de uma doença chamada hidrocefalia, que se realizou na cidade de Kōbe, no Japão. E quando estive lá em contacto com a cultura deles, numa visita ao castelo de Osaka, deu para conhecer melhor arte marcial ligada aos samurais e aos ninjas. E naquele lugar eu tive uma perceção diferente. Tenho aqui um elemento que dá para explicar às pessoas como é possível potenciar o cérebro e usá-lo 100 por cento a nosso favor.

Como assim?
Quando temos pacientes que são diagnosticados com um tumor cerebral, um acidente vascular encefálico ou uma hidrocefalia, eles têm de passar por um processo multidisciplinar de reabilitação, que inclui fisioterapia, neuropsicologia, terapia ocupacional ou musicoterapia. Aqui é possível perceber que mesmo com partes do cérebro que não funcionam de forma adequada, provocada pela lesão, estes doentes conseguem recuperar as suas funcionalidades através de um estímulo correto, adequado e repetido. Ou seja, o cérebro aprende. Mas por que esperam as pessoas por um problema tão grave para utilizarem o cérebro 100 por cento a seu favor?

E os ninjas já faziam isso?
Os ninjas conseguiam controlar tudo, sobretudo a fisiologia do corpo. Conseguiam baixar a frequência cardíaca, por exemplo. Lutavam contra dez opositores, corriam por cima de telhados e ficavam meses a espiar famílias. Como conseguiam fazer isso tudo? Muita meditação, muito treino físico e todo o desenvolvimento de uma filosofia. Treinavam o cérebro para, em momentos específicos, utilizá-lo 100 por cento a seu favor.

O neurocientista utiliza a estrela ninja shuriken para explicar os pontos que as pessoas devem trabalhar para estimular o cérebro

E como é que se consegue pôr o cérebro a funcionar a 100 por cento?
Para ajudar, costumo utilizar a estrela ninja shuriken. Há cinco pontos que as pessoas têm que entender como fundamentais, independente da religião ou cultura. Em primeiro lugar estão os relacionamentos e família. Segundo: trabalho e estudos. Terceiro: saúde física e mental. Em quarto, a saúde financeira. E em quinto lugar, mas não menos importante, o lazer. É importantíssimo saber gerir estes cinco aspetos da sua vida, mas nem sempre com a mesma intensidade. Se tiver o seu foco muito intenso no lazer é sinal que algo está errado, mas para desenvolver os outros aspetos não deve menosprezar o lazer.

Mas é difícil chegar a esta vida plena.
É, devido a algo que se chama «autossabotagem», que está relacionada com outros cinco fatores: baixa autoestima, baixa motivação, ansiedade – o mal do século –, stress e, por fim, os vícios. Estes últimos, então, parasitam o circuito cerebral de recompensa com a libertação de dopamina (neurotransmissor do prazer). Quando tem uma refeição agradável, uma boa conversa, visita uma exposição ou tem uma relação sexual prazerosa sente essa satisfação. O que os vícios fazem é absorver essa sensação.

Como as drogas?
Esses são casos mais extremos ainda. As sensações são provavelmente muito agradáveis, ou não haveria tanta gente a querer experimentar. Mas repare: se lhe der uma pen com vírus, mesmo que diga que tem um programa excelente, não vai pô-la no seu computador. No caso da droga, isso não acontece. As pessoas experimentam e perdem o controlo. Tudo porque o cérebro humano é muito curioso.

«Utilizamos 100 por cento do nosso cérebro. Chamo a atenção para isso porque o maior mito da neurociência é o de que utilizamos apenas 10 por cento dele. Isso não é verdade, é um neuromito»

Diz no seu livro que há um grande mito sobre o nosso cérebro, nomeadamente o de que só utilizamos 10 por cento do mesmo.
Esse é o maior «neuromito» que existe. A verdade é que usamos 100 por cento do cérebro sempre, embora nem sempre a nosso favor.

Para utilizar «a nosso favor» há que treiná-lo da forma correta. É isso?
Exatamente. E não adianta fazer só palavras cruzadas. É algo mais complexo. E mais uma vez, são cinco pontos, os que temos de trabalhar.

Quais são?
O primeiro é o foco. Do ponto de vista psicológico e cognitivo, quando estamos atentos aumenta o poder de captação e acionamos todas as nossas sensibilidades para determinado fim. A visão fica mais apurada, bem como a audição, o tato e o paladar. O segundo ponto importante para acionar 100 por cento do cérebro é a memória. Temos dois tipos de memória: de curto e longo prazo. Um indivíduo normal consegue captar entre cinco a nove assuntos ao mesmo tempo na memória de curto prazo. A de longo prazo é a que fica registada no nosso cérebro: datas importantes, algo que estudou, que tenha aprendido a fazer. E é preciso trabalhar as duas. O outro ponto que deve trabalhar é a intuição. Na neurociência sabemos que antes de fazer alguma coisa o próprio cérebro já começou a dar indícios elétricos que está em funcionamento. Isto porque, por vezes, nós escolhemos certas coisas com base em fatores inconscientes. Vou dar-lhe um exemplo: vai ter um exame no dia seguinte e percebe que não tem tempo de estudar a matéria toda. Decide estudar apenas um capítulo e chega ao exame e é mesmo esse que sai e tira 20. Isso é intuição. Depois, há ainda a criatividade e, por fim, a comunicação – não só através das palavras mas também dos gestos e das expressões faciais.

No caso da intuição, como é que se pode treinar?
Para estimular o contacto com o inconsciente pode fazer um exercício. Todos os dias, quando sonhar, aponte num caderno o que aconteceu. Isso é o inconsciente, de alguma forma, a conversar consigo. O cérebro, durante o período da noite, está a tentar organizar as experiências do dia mas adiciona associações esquisitas, de acontecimentos do passado e coisas que imagina no futuro.

«Sonhar é divertido e inspirador. Ter o hábito de anotar os sonhos pode ser interessante, lúdico e até mesmo esclarecedor»

Quer dizer que os sonhos têm sempre uma explicação?
Sempre. Pode não ter a resposta no momento. Mas há sonhos da infância que agora fazem todo o sentido. O cérebro é algo muito rico, tem informações que podem vir até dos nossos antepassados.

Os ninjas também trabalhavam a intuição?
Há um teste que é feito durante a formação de um ninja que é bárbaro. Eles vendam os olhos, agacham-se e o mestre, atrás, desce a espada. O discípulo, sentindo a intuição de morte, desvia-se. Parece loucura mas não é. Claro que os professores não colocam um iniciante nesta posição, é alguém já muito treinado.

É muito importante, portanto, ter o cérebro a funcionar a nosso favor?
É muito importante valorizar as nossas capacidades. As pessoas vão para o ginásio para ficarem mais bonitas e para se tornarem mais saudáveis. Já perceberam que ajuda nas doenças cardiovasculares, respiratórias e até de demência. Em relação ao cérebro, é preciso ainda perceber a real importância de tudo isto que expliquei.

Esta falta de treino das competências do cérebro pode originar algumas doenças também?
Está provado cientificamente que pessoas que frequentaram menos anos de escolaridade têm mais probabilidade de desenvolver doenças como o Alzheimer. No Brasil, por exemplo, estamos a passar por um período em que existem muitos jovens que estão a suicidar-se e adultos que estão sob stress, depressão e ansiedade. Está na hora das pessoas entenderem que o cérebro gosta de resolver problemas e que esses problemas são, na verdade, uma oportunidade para estimular a mente, a criatividade e a memória. Os problemas são convites para estimular o cérebro.

«O Cérebro Ninja» pretende mostrar como deve treinar e estimular o seu cérebro de forma a usá-lo a 100 por cento

Acha que subestimamos as capacidades que temos?
Da mesma forma que existe algo chamado «efeito placebo», que a neurociência está a estudar aprofundadamente, também existe um outro efeito que chamamos de «nocebo». Só nos focamos no mal-estar e não sintonizamos a mente onde queremos estar. É por isso que digo que são tão incríveis as possibilidades que existem dentro da cabeça. É muito triste ir a correr para um psiquiatra ou psicólogo quando poderíamos ter tentado lidar com o assunto de forma diferente.

Reagimos sempre demasiado tarde?
As pessoas esperam que aconteça algo péssimo, como um derrame, por exemplo, para começar a mexer com o cérebro e isso é que é lamentável.

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