Como o Uruguai, sem vacina, fechou as escolas por apenas três meses durante a pandemia

Correio do Pantanal

7 mar 2021 às 22:09 hs
Como o Uruguai, sem vacina, fechou as escolas por apenas três meses durante a pandemia

Controle eficaz da pandemia, com distanciamento e máscara, mas sem lockdown, e planejamento para manter alunos conectados à escola são fatores fundamentais. Veja como país vizinho conseguiu, com sucesso, reabrir todas suas escolas ainda no meio do ano passado.

Por Fabiana de Carvalho e Fabio Manzano, G1

07/03/2021 12h16  Atualizado há 10 horas


Uruguai combina aulas presenciais com ensino à distância para enfrentar a pandemia

Uruguai combina aulas presenciais com ensino à distância para enfrentar a pandemiahttps://tpc.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Apontado como um exemplo mundial na condução de seu sistema educacional durante a pandemia de Covid-19, o Uruguai conseguiu fazer com que após apenas três meses fechadas, todas suas escolas voltassem a oferecer aulas presenciais a todos os alunos, ainda que parcialmente e em esquema de rodízio.

O país vizinho é muito menor que o Brasil (sua população, de 3,4 milhões, é comparável à do Rio Grande do Norte). Mas, enquanto os brasileiros iniciaram seu retorno gradual ao ensino presencial em fevereiro de 2021, após quase 11 meses de fechamento, os uruguaios retomaram as aulas presenciais em junho de 2020, em um mundo ainda longe de alcançar a vacina, sem que isso provocasse um aumento no número de contágios e sem colocar em risco estudantes, professores e funcionários. E em um cenário que envolve 82% de alunos matriculados em escolas públicas.

Veja abaixo fatores que viabilizaram a rápida reabertura de escolas no Uruguai:

Sem perda de contato

Sala de aula da Escola Nº 38, em Montevidéu, em foto de 1º de março de 2021 — Foto: Cortesia ANEP

Sala de aula da Escola Nº 38, em Montevidéu, em foto de 1º de março de 2021 — Foto: Cortesia ANEP

Primeiro nas Américas e um dos primeiros do mundo a conseguir realizar a reabertura segura de escolas, o país combinou inicialmente aulas presenciais e educação à distância, realizando um processo gradual, por etapas e voluntário, considerando itens como densidade territorial, vulnerabilidade educacional dos alunos e condições sanitárias de cada região e dos próprios colégios.

Um fator importante foi a manutenção do contato entre alunos e escolas, mesmo no curto período em que elas permaneceram fechadas. Os centros educacionais continuaram com sua função de garantir alimentação aos estudantes mais carentes e também serviram como pontos de envio do material educativo. Essa proximidade foi essencial para reduzir a evasão.

Fernanda Betancurt, diretora de uma escola pública no bairro de Colón, em Montevidéu, considera que o fechamento ajudou a fazer com que a comunidade voltasse a se aproximar da escola.

“A gente percebeu as famílias se aproximando, porque criamos uma rede de apoio”, disse Betancurt. “Os professores passaram seus números de telefone, e isso fez com que eles começassem a saber mais sobre a escola, começaram a vir, foi um pouco melhor.”

“Isso era importante para o contexto em que a escola se encontra, pois ela atende a uma população mais vulnerável”, avalia.https://dd99a560bddceb67e593c6accf0ad7f8.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

O colégio de Betancurt faz parte do programa A.PR.EN.D.E.R. (Atenção Prioritária a Entornos com Dificuldades Estruturais Relativas), do governo uruguaio.

Escola rural em San Jose, no Uruguai, voltou às aulas presenciais ainda no ano passado, foto de 22 de abril de 2020 — Foto: Mariana Greif/Reuters/Arquivo

Escola rural em San Jose, no Uruguai, voltou às aulas presenciais ainda no ano passado, foto de 22 de abril de 2020 — Foto: Mariana Greif/Reuters/Arquivo

Essas escolas costumam ficar em bairros periféricos e atendem principalmente crianças carentes, com situações críticas de alimentação, saúde e assistência básica. Por isso, a diretora disse que uma das maiores preocupações do corpo docente era que a pandemia não provocasse uma onda de abandono escolar.

“A nossa prioridade é que eles venham e não deixem a escola. O mais importante é a permanência da criança na escola”, disse Betancurt.

Protocolos sanitários

Além do trabalho para reforçar os laços da comunidade com a escola, uma série de fatores práticos ligados a questões sanitárias favoreceram a volta à educação presencial no Uruguai:

  • em geral, os alunos são matriculados em escolas próximas de suas casas e, por isso, vão a pé. Quem precisa de transporte, tem acesso gratuito a ônibus.
  • todos usam máscaras e, segundo pais e diretores, se adaptaram sem dificuldades a essa nova realidade.
  • a entrada de pais nos colégios não é mais permitida.
  • crianças e jovens limpam os sapatos e lavam as mãos ao chegarem.
  • alunos se alimentam dentro das salas de aula durante o recreio.
  • alunos não compartilham alimentos, bebidas ou talheres.
  • todos têm de manter 1 metro entre cada aluno, tanto durante as aulas quanto no intervalo.
  • atividades ao ar livre são incentivadas sempre que possível.
  • reformas em ambientes como bibliotecas e refeitórios para adaptar os espaços às novas necessidades.

Volta gradual

Alunos da Escola Nº 38 de Montevidéu, em foto de 1º de março de 2021 — Foto: Cortesia ANEP

Alunos da Escola Nº 38 de Montevidéu, em foto de 1º de março de 2021 — Foto: Cortesia ANEP

No geral, os estudantes ficaram em casa apenas por um mês. Depois disso, os alunos das áreas rurais, menos povoadas, foram os primeiros a retornar, e em junho, em três datas diferentes, todos os níveis de educação (com exceção das universidades) retomaram as aulas presenciais, gradualmente, de forma que os locais nunca estivessem lotados.

De acordo com um relatório publicado pelo Unicef, aproximadamente 30% da população uruguaia – ou cerca de um milhão de pessoas – é composta por estudantes, sendo 95% residente nas zonas urbanas e 5% das rurais.

No Uruguai, pela Constituição, o ensino é laico, gratuito e obrigatório a partir dos 4 anos de idade e até o final do ensino médio fundamental.

Computadores e internet para todos

O Uruguai ainda se beneficiou ainda de um programa adotado desde 2007, o Plano Ceibal, que garante um computador pessoal com acesso gratuito à internet para cada criança que ingressa em seu sistema educativo. Desta forma, foi assegurado que todos conseguissem acompanhar as atividades online, uma situação muito difícil de se repetir em muitos países, inclusive o Brasil.

Protocolos claros, confiança na escola

Mãe de duas crianças, a uruguaia Natalia Peláez disse em entrevista ao G1 que, apesar do medo no início da pandemia, a clareza com que os protocolos sanitários foram divulgados e cumpridos pelas escolas aumentaram sua confiança na volta às aulas presenciais.https://dd99a560bddceb67e593c6accf0ad7f8.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Natalia Peláez é mãe de duas crianças que voltaram a frequentar a escola em Montevidéu, no Uruguai, em 1º de março de 2021 — Foto: Natalia Peláez/Arquivo Pessoal

Natalia Peláez é mãe de duas crianças que voltaram a frequentar a escola em Montevidéu, no Uruguai, em 1º de março de 2021 — Foto: Natalia Peláez/Arquivo Pessoal

“Hoje estamos tranquilos, e é por isso que mandamos nossos filhos para lá”, disse Peláez.

Ela contou que ainda estava grávida de seu segundo filho quando o Uruguai registrou o primeiro caso de Covid-19. De um dia para o outro, ela se viu em casa, com a filha de quatro anos tendo aulas pelo computador e um bebê recém-nascido.

“Nem minha família pôde conhecer o bebê pessoalmente”, disse Peláez. “Foi só por foto e ligações com vídeo.”

Com a volta das aulas em formato semipresencial, ainda no meio ano passado, Peláez contou ter sentido um pouco de receio de deixar sua filha Manuela voltar a assistir às aulas.

No entanto, segundo ela, o colégio incentivava – com vídeos e atividades – o retorno. Eles também ensinaram, conta, que não tinham que temer o vírus, mas que tinham que respeitar todas as medidas de higiene e distanciamento.

Preocupação com cumprimento do programa

Manuela é aluna do Colégio e Liceu Hans Christian Andersen, de Montevidéu, uma instituição de ensino privada que durante 2020 manteve a oferta das aulas por Zoom, mesmo quando alguns alunos optaram pela volta às atividades presenciais.

Cecilia Pasini, diretora da instituição, explica que um dos maiores desafios do último ano foi conseguir manter – mesmo com o distanciamento forçado pela quarentena e aulas remotas – os vínculos com seus alunos.https://dd99a560bddceb67e593c6accf0ad7f8.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

“O vínculo entre a escola e os alunos era a coisa mais importante que não podíamos perder”, disse Pasini.

“As crianças se mostraram muito resilientes em sua capacidade de se adaptar a protocolos, as novas dinâmicas, foi incrível”, disse a diretora. “Elas aceitaram muito bem lavar as mãos com frequência, usar máscaras. Até os mais pequeninos usam a máscara o tempo todo.”

Além disso, ela comentou que uma das maiores preocupações levantadas pelos pais era a de que os filhos conseguissem cumprir com todas as atividades previstas no programa pedagógico.

Ela disse que foi preciso reorganizar os cronogramas e entender que o ano passado não era um ano isolado. Que a formação dos alunos teria que ser repensada no biênio 2020/2021.

“E mesmo voltar às aulas presenciais não significa abandonar os outros modelos”, disse Pasini. “Temos que aprender a coordená-los, a trabalhar junto. Porque podemos ter que voltar a uma quarentena e seguir trabalhando de forma remota.”

Homem e menina passeiam pela Rambla, o calçadão da orla de Montevidéu, em maio do ano passado — Foto: Eitan Abramovich/AFP

Homem e menina passeiam pela Rambla, o calçadão da orla de Montevidéu, em maio do ano passado — Foto: Eitan Abramovich/AFP

Resposta exemplar à pandemia

As iniciativas no setor educacional foram possíveis em grande parte devido ao quadro geral do Uruguai na pandemia de Covid-19. Com uma resposta eficiente desde o surgimento do primeiro caso, em 13 de março de 2020, o país nunca enfrentou uma situação caótica como alguns de seus vizinhos. Com isso, a população, além de respeitar as regras determinadas, manteve a confiança no governo e nas medidas por ele anunciadas.

Com cerca de 3,4 milhões de habitantes, o Uruguai registrava, no começo de março, cerca de 60 mil casos de Covid-19 e pouco mais de 600 mortes. Para efeito de comparação, o Panamá, país das Américas com população de tamanho mais próximo (cerca de 4 milhões), tinha na mesma data mais de 342 mil casos e mais de 5,9 mil mortes.

No mesmo período, o Brasil se mantinha como o terceiro país do mundo com mais casos, 10,8 milhões, e o segundo com mais mortes, 261 mil (os dados dos três países são da Universidade Johns Hopkins).

O Uruguai chegou a registrar uma piora em janeiro em de 2021, com recorde de 1.215 casos em um único dia (11 de janeiro), mas no final daquele mês a taxa de contágio voltou a cair. E, ao longo de toda a pandemia, a grande maioria dos casos foi em adultos, com poucas crianças em idade escolar infectadas, de acordo com o Unicef.

Sem quarentena rígida, mas com distanciamento

Cecilia Pasini é diretora de um colégio privado em Montevidéu, no Uruguai, que voltaram às aulas presenciais neste ano em em 1º de março de 2021 — Foto: Colegio y Liceo Hans Christian Andersen

Cecilia Pasini é diretora de um colégio privado em Montevidéu, no Uruguai, que voltaram às aulas presenciais neste ano em em 1º de março de 2021 — Foto: Colegio y Liceo Hans Christian Andersenhttps://dd99a560bddceb67e593c6accf0ad7f8.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Os uruguaios nunca enfrentaram uma rígida quarentena ou um lockdown, mas desde o início da pandemia convivem com o uso obrigatório de máscaras faciais e distanciamento social. A maioria dos bares e restaurantes funciona apenas no sistema de entregas e há incentivo para o uso dos pequenos comércios locais, que evitam aglomerações de clientes.

O rastreamento de casos também foi considerado altamente eficaz. Enquanto a Argentina testava 1,7 pessoas para cada caso positivo, o México testava 1,9, e a Colômbia, 3, o Uruguai estava testando 233,7, segundo estudo publicado no site da revista científica BMJ.

Além disso, diferente da maioria dos países de vocação turística, o governo decidiu sacrificar a temporada de verão, anunciando em novembro que o Uruguai ficaria fechado até março para todos, com exceção de uruguaios, residentes e pessoas que chegassem do exterior a trabalho. E, mesmo estes, precisam de autorização e testes para entrar, além de cumprir quarentena após o ingresso.

No período das festas de fim de ano, entre 21 de dezembro e 10 de janeiro, inclusive estas pessoas também foram barradas.

O Uruguai, no entanto, foi o último país da América do Sul a receber vacinas contra a Covid-19, apenas em 25 de fevereiro. A vacinação começou em 1º de março, com o imunizante Sinovac sendo aplicado inicialmente em professores, policiais, bombeiros e militares com menos de 60 anos

ATENÇÃO: Comente com responsabilidade, os comentários não representam a opnião do Jornal Correio do Pantanal. Comentários ofensivos e que não tenham relação com a notícia, poderão ser retirados sem prévia notificação.