‘Sábado mais triste da história do Recife’: o prejuízo dos trabalhadores sem o ‘maior bloco de Carnaval do mundo’
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Correio do Pantanal

12 fev 2021 às 17:24 hs
‘Sábado mais triste da história do Recife’: o prejuízo dos trabalhadores sem o ‘maior bloco de Carnaval do mundo’
  • Leandro Machado e Vitor Tavares
  • Da BBC News Brasil em São Paulo

Há 2 horas

Desfile do Galo da Madrugada no ano passado
Legenda da foto,Cancelamento afeta a vida de músicos, costureiras, ambulantes e de empresas de eventos

Todo mês de março, Enely da Silva já pensa no próximo fevereiro.

11 meses antes de o Galo da Madrugada encher as ruas do Recife de gente, a costureira de 66 anos já começa a planejar, desenhar e fazer as contas para o próximo carnaval.

Para 2021, os valores já estavam até no papel: os cerca de R$ 16 mil que esperava receber durante o Carnaval ajudariam filhos desempregados, na reforma da casa e até na compra de um terreno perto da praia.

“Toda vez que chego na varanda aqui de casa, eu tenho vontade de chorar. Já daria pra ver as arquibancadas, a decoração, o povo trabalhando nas ruas”, diz Enely, com a voz embargada, à BBC News Brasil.ADVERTISEMENThttps://91b43c8e20e7f36a26380834fba11d8a.safeframe.googlesyndication.com/safeframe/1-0-37/html/container.html

Pela primeira vez nos seus 43 anos de história, o “maior bloco de Carnaval do Mundo”, como foi registrado no Guiness Book em 1994, não vai desfilar. Em dezembro, o governo de Pernambuco cancelou oficialmente a festa, em razão da pandemia de covid-19.Pule Talvez também te interesse e continue lendoTalvez também te interesse

A transmissão do novo coronavírus no país nunca chegou a ser controlada e tem piorado nos últimos meses. Em janeiro, o Brasil voltou a superar a marca de mil óbitos por dia, um patamar registrado então pela última vez em setembro. Até esta quinta (11/02), haviam sido contabilizados 236,2 mil mortos e mais de 9,7 milhões de casos.

“Vai ser o sábado mais triste da história do Recife”, lamenta Enely, moradora do bairro de São José, onde o bloco nasceu como uma celebração de amigos e passou a ser símbolo e fonte de renda de toda uma região.

Costureira Enely da Silva fantasiada
Legenda da foto,A costureira Enely da Silva vai deixar de arrecadar R$ 16 mil com o Galo da Madrugada

Estima-se que o Galo receba, todos os anos, até 2 milhões de pessoas ao longo de seus seis quilômetros de percurso pela capital pernambucana.

Um ano sem o bloco na rua significa menos dinheiro no bolso de milhares de pessoas: de músicos a costureiras, de donos de camarote a catadores de lixo.

Ao todo, o principal bloco do Recife mobiliza 4 mil pessoas contratadas diretamente apenas para o dia do desfile, segundo a organização.

Seu tamanho colossal acaba movimentando milhões de reais, tanto em patrocínios diretos quanto em trabalhos temporários na economia local, como bares, hotelaria, trios elétricos, entre outros setores.

O valor exato desse montante é incerto — o presidente da agremiação, Rômulo Meneses, 71, prefere não falar em números.

Pessoa mascarada durante desfile do Galo da Madrugada, no Recife
Legenda da foto,Setor de confecção de máscaras e fantasias também foi afetado por cancelamento do Carnaval em virtude da pandemia

“Nesse ano, toda uma cadeia de produção vai ser afetada. Só de músicos são cerca de mil pessoas. O Galo movimenta muita gente, desde pessoas que alugam casas para foliões até as empresas de eventos”, revelou Meneses.

‘Prejuízo financeiro e emocional’

O dia do Galo da Madrugada tem seu ritual: começa com um café da manhã, a partir das 7h, para dar as boas-vindas ao desfile.

Os carros alegóricos enfeitados com o tema do ano são os primeiros a entrar na avenida. Depois, são quase 30 trios elétricos percorrendo as ruas até as 18h.

Quatro deles pertencem à Status, empresa familiar que desde os anos 1980 aluga os veículos para o bloco. Segundo a empresária Flaviane Souza de Moura, 35, o Carnaval representa 90% do faturamento do ano.

Ela conta que, no início da pandemia, a empresa aderiu a uma ajuda financeira do governo federal para sobreviver por oito meses. Segundo o acordo para participar do programa, a Status agora precisa manter seus 21 funcionários pelo menos até setembro.

“Quando começou a pandemia, a gente jamais imaginava que não teria Carnaval, por isso participamos do projeto de auxílio do governo. Mas, agora, sem o Carnaval, estamos lutando para que a empresa não feche. O prejuízo financeiro e emocional é enorme. Meu sentimento é uma dor no coração”, diz a empresária, que tentou participar de outro programa de crédito para o setor, mas não foi selecionada pela instituição financeira que atua na área.

‘Tesouro compartilhado’

Multidão em rua do Recife durante desfile do Galo da Madrugada no ano passado
Legenda da foto,Organização estima que Galo da Madrugada reúna 2 milhões de pessoas no desfile de Carnaval

Fundado como um bloco familiar, em 1977, o Galo quis reviver os antigos carnavais de rua, mas acabou se tornando o maior símbolo da festa em Pernambuco: “Nunca imaginávamos o quanto ele cresceria. Ele começou a dobrar de tamanho todo ano, até chegar ao que conhecemos hoje”, conta Rômulo Meneses, fundador e presidente.

Quem estava desde o começo também era Enely. Primeiro, como foliã, e hoje, como parte da cadeia produtiva em torno do bloco.

Suas máquinas de costura começam a trabalhar pra valer todo mês de outubro. Das mãos dela e de ajudantes, saem as fantasias do coral, de músicos e até da diretoria.

“Este ano, eu tive que apertar tudo, cancelar planos, compras. Mas eu ainda tenho minha aposentadoria [como atendente de telemarketing]. Tem gente aqui no bairro que não vai ter o que comer”.

Enely encara o bloco como um “tesouro” local que é compartilhado com milhares de pessoas.

Quase todos vizinhos ganham dinheiro de alguma forma, durante o desfile, diz a costureira. Um vende gelo, outro refrigerante, uns alugam os imóveis, outros o estacionamento…

“É uma fábrica de dinheiro. Este ano, é só tristeza aqui”.

“Sinto um aperto no peito com o que estamos vivendo. Estou pedindo a Deus todos os dias que não me deixe cair na depressão diante de tudo isso.”

O ciclo ‘completo’ das perdas

O cancelamento do carnaval fecha um ciclo inglório de prejuízos no setor de eventos do Recife.

O primeiro baque foi nas festas juninas, o segundo nas do final do ano e, agora, o primeiro “carnaval” na pandemia.

“O ganho do setor foi zero, fomos o primeiro a parar e seremos o último a voltar”, diz Kenyo Lapenda, criador de uma das maiores plataformas para venda de ingressos de Pernambuco, a Ingresso Prime.

Antes da pandemia, a empresa tinha 16 funcionários — hoje, sobraram quatro. O desfile do Galo da Madrugada é um dos melhores momentos para o setor em Pernambuco.

Além do cortejo público, são mais de 40 camarotes privados em terrenos, postos de gasolina e estacionamentos no caminho do Galo. Alguns reúnem mais de 10 mil pessoas, com atrações de peso e ingressos na casa das centenas de reais.

Em 2020, só na Ingresso Prime, foram movimentados cerca de R$ 15 milhões de reais no período de carnaval — desse montante, R$ 6 milhões envolviam apenas o Galo.

Desfile do Galo da Madrugada no ano passado

A própria organização do Galo da Madrugada tem 18 funcionários contratados durante todo o ano — por ora, os efeitos econômicos da pandemia não afetaram esses empregos.

Para Meneses, porém, um ano sem Galo da Madrugada é um ano “vazio”. “Às vezes me pego pensando se isso é mesmo verdade. Estou me sentindo aéreo, meio dopado, meio vazio, com uma tristeza muito grande. Ao mesmo tempo, precisamos pensar em formas de mitigar esses efeitos”, diz.

Sem o desfile na rua, este ano o bloco vai realizar algumas lives nas internet. Uma delas também será transmitida pela TV. O bloco também está realizando campanhas de doações para arrecadar dinheiro e alimentos para os profissionais afetados pelo cancelamento.

Na última terça-feira, 9, o prefeito do Recife, João Campos (PSB), anunciou um auxílio emergencial destinado apenas a trabalhadores da cultura afetados pelo cancelamento do carnaval.

O projeto, que segue para a Câmara dos Vereadores, quer destinar R$ 4 milhões para cerca de 160 agremiações com sede na cidade e 900 atrações artísticas, entre cantores, bandas e orquestras que se apresentaram no Carnaval de 2020.

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