11 fev 2018 às 12:45 hs
“Vi em Modi um líder que quer abrir a Índia ao mundo”

Nilza de Sena esteve no encontro de políticos de origem indiana

  |  GUSTAVO BOM / GLOBAL IMAGENS

A conversa com Nilza de Sena foi na Assembleia da República, pois era dia de votações e convinha não faltar, mas bem podia ter acontecido no ISCSP, onde a deputada do PSD é professora e no qual, ainda nos tempos do Palácio Burnay na Junqueira, quase que nos cruzámos como alunos, eu a acabar o curso, ela a começar. O motivo da entrevista tinha, por outro lado, mais que ver com o Parlamento do que com a vida académica: a participação em janeiro em Nova Deli num encontro de políticos com origens indianas.

Como é que foi estar ao lado de Narendra Modi, o homem que é o líder de 1300 milhões de pessoas?

Foi uma experiência muito interessante para quem foi à Índia pela primeira vez e que tem raízes na Índia, como eu. É um privilégio estar com o primeiro-ministro mais forte das últimas décadas na Índia, porque tem suporte na maior parte dos estados mas também porque tem a maioria da câmara baixa e quase domina a câmara alta. Mas sobretudo encontrei um homem, ao contrário do que lia na imprensa internacional, com visão. A caricatura dele mostra muitas vezes um hindu nacionalista e com algum intuito persecutório com as minorias, mas encontrei um líder que quer abrir a Índia ao mundo. A iniciativa em Deli foi organizada pelo governo indiano, que partiu da ideia de fazer um encontro com a diáspora, com políticos que tenham origens indianas, e mostrar a mais-valia que era pertencer àquele país mas sobretudo ter em cada um uma espécie de embaixador nos seus países.

Entre esses deputados havia cristãos, hindus, muçulmanos, sikhs, enfim, toda a habitual diversidade da Índia?

Os deputados tinham diferentes religiões, o que é manifestamente o microcosmos daquilo que se encontra na Índia.

De que países vinham os políticos?

Dos Estados Unidos, Grã-Bretanha, Suíça, Malásia, Suriname, África do Sul, Jamaica. Da Península Ibérica era só eu. Entre nós falávamos inglês.

Foi a primeira vez que foi à Índia, um país de extremos. Sentiu um choque?

Não senti muito, mas preparei-me para isso e tenho tido a oportunidade de estar em países onde as condições são parecidas com as que vi na Índia. O que encontrei foi uma riqueza muito grande do indiano propriamente dito. Só estive em Deli mas conheci esse indiano que tem preocupações em conhecer o outro, sobretudo em abrir portas para fora. Acho que a dimensão da tecnologia e da internet e até da produção cinematográfica que eles fazem vai buscar essa abertura que encontrei no cidadão comum. Falei com pessoas na rua que me faziam perguntas e falavam de Cristiano Ronaldo ou Figo. Não senti nenhuma animosidade para com Portugal por termos sido uma potência colonizadora. Quando dizia que era portuguesa saudavam-me com gosto.

Como é que se faz a sua ligação familiar com a Índia? É via Moçambique?

A minha avó paterna e o meu avô materno têm origem em Goa, os meus bisavós foram para Moçambique, eu nasci lá e os meus pais também, e vim com meses para Lisboa, onde cresci.

Uma família como a sua identifica-se mais como goesa do que indiana?

Mais como goesa, sim. Há uma marca identitária que mesmo dentro da Índia é diferente, que passa por um orgulho na própria herança portuguesa, e aqui faço a ressalva: se da parte da minha avó materna são originariamente goeses, da parte do meu avô já há famílias de origem portuguesa que se tinham radicado em Goa, portanto, são indo-portugueses. O que sinto é que ficam traços da herança na gastronomia, e também num certo viver mais tranquilo que é próprio de quem vive lá e menos próprio de quem vive na Europa. Sou católica, mas também sou um pouco orientalista, pratico ioga quase todos os dias, sou vegetariana há vinte e muitos anos e acho que essa herança já não é tanto goesa mas que me vem, sim, dessas filosofias de vida orientais que também se encontram na Índia. E muito daquilo que eu colho para a minha vida tem uma semente muito forte de figuras como Gandhi e Madre Teresa de Calcutá.

O que é que lhe saltou mais à vista daquilo que a Índia tem de corrigir?

A Índia tem imensos desafios nos próximos anos. Um grande que senti na pele, e é literal, é a poluição. Olho, a par da China, para a Índia como um dos grandes motores do século XXI, não só em termos de população mas em termos de juventude, e temos de reconhecer que encontramos um país em que 600 milhões vivem em zonas rurais, e essa ruralidade assusta na medida em que continuamos a ter imensos problemas de direitos humanos. É terrível a condição de vida e a forma como a mulher é tratada em zonas rurais. Em direitos humanos há um longo caminho a percorrer. Mas também vejo o lado positivo, porque quando pensamos que em 2025 um quarto da população ativa será proveniente da Índia, isto tem um significado muito grande do ponto de vista da produtividade mundial. A Índia promete muito, com a população jovem que tem, o desenvolvimento na biotecnologia, a superação das exportações de software. Bangalore é o maior Silicon Valley que podemos encontrar. Não é por acaso que na área da tecnologia empresas americanas como a Google, a HP, a Cisco confiam em equipas indianas para produção de software de nova geração. Este é o lado positivo, mas do outro lado há a pobreza extrema, que Modi quer combater através do crescimento económico, com taxas de 7% e mais, e acima até das da China, mas que não chegam. Há ainda a vergonha das castas, que ainda não conseguiram ultrapassar.

E a corrupção, que Modi denuncia?

O combate à corrupção é uma das grande bandeiras deste primeiro-ministro. Tivemos aquela célebre iniciativa de tirar notas altas de circulação. Vemos na comparação com a China que o boom da industrialização não existe na Índia precisamente porque esta corrupção puxa para baixo. Nas pequeninas coisas do dia-a-dia encontramos enraizada esta corrupção.

Há quem atribua muitos dos defeitos que a Índia tem, em comparação com a China, ao facto de ser uma democracia, com os compromissos que têm de ser feitos entre os partidos e os governos regionais e central. Sentiu estar na maior democracia do mundo?

Senti. Tive oportunidade de estar no prime time da televisão e não tive dificuldade em falar nada. Ninguém me pôs constrangimentos nenhuns, nem a nenhum dos entrevistados da conferência. Li alguns grandes jornais em inglês para ter noção dos grandes temas que preocupam a sociedade indiana neste momento e percebi pluralismo de opinião em relação a diversos pontos.

António Costa foi à Índia no início do ano passado, Modi fez questão de vir a Portugal. Acha que há uma forte ligação entre a Índia e Portugal e que o facto de o nosso primeiro-ministro ser de origem goesa está a dar um momento especial a essa relação?

Precisamos de fomentar essa ligação, que tem vindo a ser construída ao longo dos últimos anos. Não começa com o atual primeiro-ministro, mas reconheço que o facto de ele ter lá ido e de ter sido recebido como um filho da terra deu ao país uma nova oportunidade. Depois da interrupção histórica nestas ligações com a Índia, Mário Soares e Cavaco Silva estiveram lá em visita como presidentes e fomos sempre entabulando essa história com a Índia no sentido de não perdermos essa nossa ligação cultural que nos coloca num lugar privilegiado. Penso que eles estão muito recetivos a que esta ligação possa ser mais profícua, temos mais de 24 acordos assinados em diferentes áreas: espaço, defesa, educação, renováveis, ciência.

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